Notícias de uma desnaturada

Já ando para cá vir há pelo menos duas semanas, mas não é hoje é amanhã e por um pouco nunca mais era. Todos os dias oiço histórias, descubro coisas, conheço projectos que me levam a pensar no pelele, que me enchem de vontade de vir para aqui divagar (actividade na qual sou um verdadeiro ás). Mas depois penso que a vida dos velhotes que sobem comigo o Elevador da Bica, que a árvore participativa do Príncipe Real ou os segredos que me vieram contar sobre uma aldeia lá nos confins de Portugal não têm nada a ver com a Guiné. Meto a viola no saco, tento não me esquecer da letra e guardo a música para outros repertórios.

Deixei de aqui vir porque a minha vida em Lisboa não tem nada a ver com Bissau e o pelele é tal e qual as mangueiras guineenses: até pode ser regado noutras terras mas em solo tropical tem logo outro sabor. Não me despedi há mais tempo porque a possibilidade de voltar ainda este mês esteve sempre em cima da mesa. Agora que me decidi por Lisboa, que abracei uns quantos (mais do que um já são uns quantos, não é?) projectos grávidos de futuro e que planeei os meus próximos tempos por cá (isto de ter a certeza onde vou ficar nos próximos três meses é assim a loucura), não fazia sentido manter o pelele em banho-maria.

Não venho dizer adeus, é mais um até já. E não é daqueles que quer dizer nunca mais, é um até já convicto de que vou voltar à Guiné-Bissau, e nessa altura venho logo aqui contar-vos as novidades.

É isto e, sendo isto, não deixa de custar um bocadinho. Vou ter saudades de ter um poiso só meu onde posso mandar as larachas que quiser. À Guiné e aos meus amigos guineenses? Desejo muita coisa. Mas vou escolher a única que sei não serem capazes de conseguir sozinhos: paz.

IMG_5980

 

 

 

Coisas que mudaram #10

Cheguei a Portugal a precisar urgentemente de um ginásio, correndo o risco de no Verão andar por aí a vazar piscinas (talvez esteja a exagerar, não muito por certo). Mas depois encontrei uma nova modalidade que se chama o “sobe e desce” do escadote e fiz do pano do pó o companheiro de todas as horas. Quando acordei hoje de manhã, doíam-me todos os ossinhos – e alguns músculos que desconhecia ter – e pensei: “vamos lá ter um tête-à-tête com a balança”.

E não é que isto dá resultado? Prova superada. Entre ser mulher de limpeza de obras e mal ter tempo para ingerir alimentos sólidos, já se foram três quilos. O meu problema é que ainda agora os perdi e já estou a pensar no que poderei comer a mais no fim-de-semana para compensar a intensa estafa física. Gorda.

Isto sempre foi assim?

Passei seis meses num país em que nada era impossível, onde o jeitinho se podia dar sempre, onde, se fosse para ajudar, todas as regras eram contornáveis. E agora estou mal habituada. Se calhar, até sensível de mais. Chego a Portugal e ou me tenho cruzado com as pessoas erradas, ou, no que toca ao atendimento ao público, somos um bocado a atirar para o bestinhas quadradas. Só hoje, foi isto:

1) Entro na padaria com um sorriso de orelha a orelha e digo bom dia aos três clientes e à empregada. A resposta foi um moita-carrasco.

2) Paro o carro à porta de casa para descarregar três caixas pesadas e o senhor motorista traseiro começa a apitar. Peço-lhe, por favor, para esperar um minuto ao mesmo tempo que me desculpo. Ele estica-me o dedo do meio e continua a apitar.

3) Poucos minutos depois, sigo para estacionar e um excelentíssimo taxista lisboeta mete a cabeça fora do carro e diz: “sua mula, és mesmo mula”. Apenas porque não cedi passagem quando era do seu lado da via que se encontrava o obstáculo.

4) Já no final do dia, às compras numa loja da Leroy Merlin totalmente vazia, peço à senhora da caixa para me deixar passar visto que a casa de banho era mesmo ali à frente e eu estava aflitinha, aflitinha. “Não, tem mesmo de ser lá ao fundo”. E lá fui eu a correr e aos pulos por aquele corredor infinito a fora. Para lá e para cá e depois outra vez para lá.

Isto tudo depois de ontem ter sido travada por uma qualquer parte sensata do  meu cérebro de mandar pelos ares a secretária da senhora que me atendia na EMEL. Mal educada e arrogante. Conhecem alguma forma de combater a má educação e a arrogância sem recorrer à violência? Se sim, elucidem-me que bem preciso.

Só me pergunto se isto sempre foi assim. Regras e mais regras. Rígidas, incontornáveis, às vezes estúpidas mesmo. Que loucura, que prisão, que carneirismo. A minha avó teria chamado a isto “rebanho de ovelhas mal cheiroso”.

Desejos

No fim-de-semana visitei uma plantação de desejos e andei à colheita. A artista plástica brasileira Rivane Neuenschwander pediu a várias pessoas que lhe confessassem as suas vontades e imprimiu-as nas tradicionais fitas que se vendem na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador da Bahía. O resultado foi uma parade cheia de cor e significado, onde cada visitante podia trazer para casa os desejos com que mais se identificasse.

caixa

Eu que a maioria das vezes me canso a ver museus, que sou sempre das primeiras a acabar e, qual criança irrequieta, a primeira a perguntar se ainda falta muito, passei mais de meia-hora a olhar para uma parede. Sou das palavras e se me dão palavras, ainda por cima palavras com as quais posso brincar, é como se estivesse no parque infantil.

A instalação está na Caixa Fórum, em Barcelona.

Estes foram os desejos escolhidos por mim e pelos meus amigos:

fitinhas

Guiné: entre o paraíso e as saudades de Portugal

Saiu hoje no jornal Público um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer desde que sou jornalista. Daqueles como eu gosto, com estórias densas, com rostos que ilustram a realidade e entrevistas que ocupam a tarde inteira. A vida de Célia e Dinis deu uma cambalhota do 80 para o 8, mas nem por isso o casal deixa de ter esperança no futuro. Susana e David decidiram que não queriam continuar a definhar em Portugal e apaixonaram-se pelos guineenses. Carlos encontrou na Guiné o paraíso depois de ter passado por um desgosto de amor dos que fazem doer muito. E Lurdes gostava de fazer da Guiné uma Suiça em termos de dinheiro e um Brasil em turismo. Se quiserem, podem conhecê-los melhor aqui.

Foi a quando comecei a escrever esta reportagem que me chamei jornalista sanguessuga. Confirmou-se. Infelizmente, somos todos.

Ficam algumas fotografias, tiradas pelo Ricardo Venâncio Lopes, vejam lá se descobrem quem é quem.

Dinis e Célia

Dinis e Célia2 Dinis e Celia3

Dinis e celia4

David e susana 3 David e Susana

David e Susana 2

carlos carlos2

Lurdes Loureiro Lurdes Loureiro2

Lurdes Loureiro3

Coisas que mudaram #9

“Bom dia pa abó” oiço mal me sento no barco. E sinto a cabeça a fazer curto-circuito. Uma expressão tão familiar que, fora do contexto, me deixou à nora. Demorei alguns segundos a processar a informação, é incrível como não é automático o cruzamento de duas realidades que nos são tão próximas. São guineenses, pois claro. E dizem um bom dia alto, simpático. Um bom dia que sorri a todos os que o querem ouvir.

Fiz a viagem de barco entre o Barreiro e Lisboa milhares de vezes. Devo ter ouvido outros milhares de “bom dias pa abó”. Mas não ligava, não percebia nada do que diziam, falavam sobre uma coisa qualquer estranha que não me interessava, devia pensar. Hoje pus conversa, perguntei se eram guineenses, disse que conhecia o seu país. Inconscientemente, afinal eu também me deixava levar pelo “perigo da história única”.

O perigo da história única

Para as pessoas que acham que África é uma coisa qualquer ali em baixo onde vivem uma série de vândalos, este é um vídeo indispensável. Para aqueles que, durante esta semana, quase me meteram a espumar da boca quando me diziam que era tudo muito melhor e mais bonito e mais limpinho e mais civilizado (a palavra civilizado fez-me desistir da conversa, há que canalizar onde investimos as nossas energias) quando os portugueses estavam na Guiné, este é um vídeo indespensável. É este vídeo e um livro com a história de África e a história da colonização do continente. Há vários à disposição.

Coisas que mudaram #8

Deixei amigas adolescentes e encontro mulheres adultas.

Ontem passei a tarde com a Luciana, uma amiga do arco-da-velha. Primeiro no café, depois a ver um filme, enroladas numa manta, seguido de um lanche com tostas mistas. Mesmo old school, a fazer lembrar os tempos em que estudávamos com uma fita na cabeça para os exames nacionais. Isto não mudou, e é mesmo bom. O que mudou:

- Ai, agora tenho de andar sempre com os meus comprimidos, diz-me ao mesmo tempo que tira a caixa da mala.

- Então, estás doente?

- Não, mas fui fazer análises e olha…

- Colesterol?

- Não, tenho os valores de ácido fólico em baixo e o médico diz que para preparar a gravidez o melhor é tomar estes comprimidos. Quero engravidar no final do ano.

(ainda bem que não estava a comer nada ou teria morrido engasgada, mas esta mulher conta-me isto assim?)

E é nestas alturas que tenho quase a certeza de ter sido abalada pelo síndrome de Benjamim Button: quando era adolescente só sonhava com coisas de gente grande, agora fujo delas. Não se me enquadram e não consigo deixar de me sentir um bocado estranha por isso.

A ilha sagrada onde é proibido derramar sangue

É o título da minha reportagem sobre a ilha de Rubane que saiu hoje no Fugas, o suplemento de sábado do jornal Público.

Deixo-vos o “beijinho” inicial. Se ficarem interessados, podem ler o resto aqui.

“Mitos, tabus e tradições ancestrais, florestas sagradas, poderes do além. Por detrás do cenário paradisíaco, da sombra das palmeiras e das praias desertas de água cálida e areia fina, a ilha de Rubane esconde segredos que bem podiam ser uma lenda. Mas não são. Neste pedaço do Atlântico não se podem fazer construções definitivas, travar lutas ou enterrar mortos. Não se pode viver para sempre. Rubane pertence aos Bijagós – uma das mais de 30 etnias da Guiné-Bissau que deu o nome ao arquipélago de que polvilha a costa do país – e são eles quem ditam as regras da sua ocupação. Ou ditavam. Ilha sagrada, classificada pela UNESCO como Reserva da Biosfera e Património da Humanidade, a pobreza dos seus donos fez com que a cedessem à exploração turística em troca de telhados de zinco e pirogas a motor.

Quintino passeia à beira-mar junto às cabanas de palha seca construídas pela tabanca de Enem para o período do cultivo de arroz (a base da alimentação dos guineenses). O sorriso esburacado denuncia-lhe a queda dos primeiros dentes de leite. Não tem metro e meio de gente mas veste uma camisa de homem grande (adulto em crioulo), desabotoada e suja. Mais as cuecas verde garrafa para tapar o sexo. Com cinco anos é o membro mais novo da comunidade em Rubane. “Anualmente vêm de Bubaque [a principal cidade e ponto de comércio de todo o arquipélago] pessoas das tabancas de Bijante, Enem e Ancadona para a plantação de arroz, milho e inhame e a produção de óleo e vinho de palma. Constroem casas provisórias, junto às terras que decidiram cultivar, e aí ficam durante cerca de seis meses. Ninguém pode viver aqui definitivamente, há uma série de rituais que têm de ser cumpridos”, explica Abas Câmara, um bijagós de Bubaque e chefe de pessoal do hotel Ponta Anchaca.

Rubane é umas das reservas agrícolas dos Bijagós, aí produzem parte da comida que os alimenta ao longo do ano, e um sítio nacional sagrado. Ou seja, um local habitado por divindades e espíritos naturais e ancestrais, que as pessoas vêem no momento do nascimento e sobre o qual ouvem múltiplas histórias contadas pelos mais velhos. Com grande importância simbólica e social, os lugares sagrados pertencem às comunidades étnicas da Guiné-Bissau, que acreditam na punição divina para aqueles que violarem as suas regras.

Na ilha de Rubane não se pode derramar sangue ou enterrar corpos, nem que sejam de animais. Os macacos e ratos da Gâmbia têm a entrada interdita, por serem considerados pragas para as culturas, e só são autorizadas construções que possam ser demolidas em minutos. Nada do que ali acontece deve deixar marcas definitivas.”

1-14 3 9+16

7