Olá Guiné, cuma di corpo?

Passaram dois anos e meio desde que pisei na Guiné-Bissau pela primeira vez. Que, já de colchão às costas, quase obriguei a Susana a aceitar-me em casa dela (fui alvo de um inquérito apertado para ascender a sua companheira de casa –  a desgraçada hoje nega tudo mas não se acreditem). Que lá entrei carregada de latas de atum e esparguete de pacote porque de todas as coisas que me poderiam acontecer por ir sozinha para África aquilo que realmente preocupava a minha mãe era a possibilidade de eu poder morrer à fome. Que fui comprar tecidos para fazer vestidos que não passavam na cabeça e calças que trancavam abaixo da anca. Que viajei num táxi sem vidros nas janelas a cantar “chop my móni cause I don’t care” com o motorista a ensinar-me o esquema para fazer boa figura na pista de dança. Que me vesti como a “Dora, a exploradora” para ir à discoteca e passei das maiores vergonhas de que tenho memória.

Passaram dois anos e meio da viagem da minha vida. Sim, é cliché, mas é o que é. Agradeço todos os dias à Guiné por me ter tirado as palas dos olhos e oxigenado o cérebro. Por me ter dado injecções cavalares das melhores lições que se podem aprender.

Amanhã estarei de volta. E o pelele também. Estou que nem posso de tanta alegria.

Notícias de uma desnaturada

Já ando para cá vir há pelo menos duas semanas, mas não é hoje é amanhã e por um pouco nunca mais era. Todos os dias oiço histórias, descubro coisas, conheço projectos que me levam a pensar no pelele, que me enchem de vontade de vir para aqui divagar (actividade na qual sou um verdadeiro ás). Mas depois penso que a vida dos velhotes que sobem comigo o Elevador da Bica, que a árvore participativa do Príncipe Real ou os segredos que me vieram contar sobre uma aldeia lá nos confins de Portugal não têm nada a ver com a Guiné.

Deixei de aqui vir porque a minha vida em Lisboa não tem nada a ver com Bissau e o pelele é tal e qual as mangueiras guineenses: até pode ser regado noutras terras mas em solo tropical tem logo outro sabor.

Não venho dizer adeus, é mais um até já. E não é daqueles que quer dizer nunca mais, é um até já convicto de que vou voltar à Guiné-Bissau, e nessa altura venho logo aqui contar-vos as novidades. É isto e, sendo isto, não deixa de custar um bocadinho. Vou ter saudades de ter um poiso só meu onde posso mandar as larachas que quiser.IMG_5980

O perigo da história única

Para as pessoas que acham que África é uma coisa qualquer ali em baixo, este é um vídeo indispensável. Para aqueles que, durante esta semana, quase me meteram a espumar da boca quando me diziam que era tudo muito melhor e mais bonito e mais limpinho e mais civilizado (a palavra civilizado fez-me desistir da conversa, há que canalizar onde investimos as nossas energias) quando os portugueses estavam na Guiné, este é um vídeo indespensável. É este vídeo e um livro com a história de África e a história da colonização do continente. Há vários à disposição.

Coisas que mudaram #8

Deixei amigas adolescentes e encontro mulheres adultas.

Ontem passei a tarde com a Luciana, uma amiga do arco-da-velha. Primeiro no café, depois a ver um filme, enroladas numa manta, seguido de um lanche com tostas mistas. Mesmo old school, a fazer lembrar os tempos em que estudávamos com uma fita na cabeça para os exames nacionais. Isto não mudou, e é mesmo bom. O que mudou:

– Ai, agora tenho de andar sempre com os meus comprimidos, diz-me ao mesmo tempo que tira a caixa da mala.

– Então, estás doente?

– Não, mas fui fazer análises e olha…

– Colesterol?

– Não, tenho os valores de ácido fólico em baixo e o médico diz que para preparar a gravidez o melhor é tomar estes comprimidos. Quero engravidar no final do ano.

(ainda bem que não estava a comer nada ou teria morrido engasgada, mas esta mulher conta-me isto assim?)

Chêguei!

Tenho o cérebro um bocado cansado, o que poderá resultar num post com pouco sentido, mas achei que devia vir aqui dar notícias na mesma.

Cheguei a Portugal há umas dezenas de horas já, não escrevi um post para encerrar o estaminé porque daqui a um mês sou capaz de estar de volta (viva o trabalho!) e até lá tenho muita prosa para aqui vir botar. Fiquei encantada com os candeeiros da minha casa que continuam a dar luz mal carrego no interruptor, com o chuveiro da banheira que brota água quente em abundância e com os supermercados, recheados de iogurtes de morango, banana, pêssego, com e sem pedaços, tamanhos S, M, L e XL, benzós Deus. Uma felicidade que foi abalada logo no primeiro dia de tugolândia quando vi uma mãe a segurar o filho com uma coleira de cão e a berrar-lhe porque o desgraçado nasceu com pernas e decidiu usá-las para correr.

Coisas que dão sempre jeito saber sobre a Guiné

Mesmo que seja a um dia de ir embora.

– Morrem cerca de 20 pessoas por ano de um fenómeno conhecido como “manga na tola”. O fruto cai das árvores e às vezes acerta onde não deve.

– É um dos países onde existem crocodilos de água salgada.

– Ao contrário do que me tinham dito, há tubarões junto à costa.

– Ser picado por uma raia na praia é altamente provável. As dores variam entre a extrema agonia nas primeiras quatro horas e a agonia nas oito horas seguintes.

“Mas relaxa, aqui há tanto peixe para comer que ninguém te ataca”, tranquilizaram-me. Então está bem, toda eu sou relaxe com esta informação.

O barco da Páscoa ou como assistir a um freak show a custo zero

É tradição para os guineenses passar a Páscoa na ilha de Bubaque, a capital do Arquipélago dos Bijagós, onde se realiza um festival de música. Bissau vai em peso no Expresso que faz a travessia entre a capital e a ilha. E quando digo em peso é mesmo em peso, galinhas e porcos incluídos.

Quando chegou a minha vez de entrar, pensei ser impossível passar mais uma pessoa que fosse. Não se avistava um espaço livre e o barco pendia para o lado esquerdo como se quisesse afundar antes mesmo de partir. Tipo suicídio previdente. Mas entrei, claro. Eu e mais umas dezenas atrás de mim. O que se seguiu foi um espectáculo ao qual se deve assistir pelo menos uma vez na vida.

Uma festa que só. Das taças de alumínio começaram a saltar os pratos de galinha cafriela, o caldo de chabéu, os rissóis e o peixe seco. Enquanto  houve gasóleo no gerador, um DJ tratou de dar música ao pessoal que se abanava de tal maneira que achei mesmo ser desta que não me safava (deveria ser feito um estudo na Guiné sobre as coisas que têm tudo para correr mal e acabam bem). Toda a gente estava possuída por uma alegria contagiante e quando se pedia “com licença” às meninas, cujos tops reduzidos tinham entretanto descido e lhes deixado as mamocas ao léu, respondiam com um grande sorriso: “Com licença não, é mesmo para roçar. Roça, roça”. A mim, apalparam-me uma série de vezes para ver se o “material dos brancos era igual ao dos pretos”, justificaram-se elas perante o meu ar incrédulo.

Não me perguntem como aquela lata velha cheia de ferrugem chegou, mas chegou. Levámos nove horas a fazer um percurso que numa lancha não demora mais de duas. Experimentei todas as posições possíveis e imaginárias, acho que falhei o pino e pouco mais. Para o fim, já me apetecia chorar tal era o desespero de nunca mais pisar terra. Mas valeu. Só não penso é repetir que isto de meter a vida à prova não é decididamente para mim.

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Que bela forma de dizer até já à Guiné

Na quinta-feira o Benvindo ligou-me porque me queria ver antes de eu ir para Portugal. Como já não dava para nos encontrarmos, pediu-me a morada “para enviar mangas, cajus e anánases” e disse-me que o Erivan e a Aissatu viriam encontrar-se comigo.

O Erivan continua a dizer que o Messi é melhor que o Ronaldo mas já vê melhor do que eu, do mal o menos. “Queremos oferecer-lhe uma prenda para agradecer”, disseram-me. Respondi que não era preciso nada, só até abrir o saco que depois agarrei-me a tudo tipo cola. A manta é tradicional da Guiné e foi bordada pela Aissatu e a calabaça, explicaram-me, representa a amizade entre a Guiné e Portugal. Lindo.

Presente Erivan

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