Parece que é mesmo verdade. Vou para Bissau, vou para Bissau, vou para Bissau. Repito três vezes e alto porque ainda assim me parece mentira. Escrevo-vos do aeroporto com o coração a saltar da boca. Tenho medo de quase tudo, dos bichos, de não me adaptar, dos bichos, de ficar doente, dos bichos, da instabilidade política, dos bichos. Ai os bichos… A ideia de baratas voadoras se estatelarem na minha fronha enquanto me passeio pela rua roubou-me a última noite de sono em Portugal (obrigada pelo esclarecimento, Arouca!).

Tenho medo, mas estou tremendamente feliz, talvez como não me sentia há muito. Porque finalmente enterrei o escritório com o trabalho das nove às seis com pessoas que rebentam de si mesmas – ao qual espero nunca mais ter de voltar, porque pela primeira vez sinto que encontrei um trabalho no qual acho poder mesmo fazer a diferença, sentir-me útil. Esta coisa de ser mais uma peça que ajuda a máquina (à qual nem sempre reconhecemos grande sentido) a rodar estava a dar cabo de mim.

Na mala, estimo levar mais medicamentos do que os disponíveis em todos os hospitais da Guiné-Bissau e transporto também uma pequena mercearia gourmet com pão alentejano, presunto da serra, queijo flamengo e castelão, enlatados vários e bolachas de chocolate, aveia e frutos vermelhos. Deixei em casa uma mãe aflita, trazer às costas todos os luxos que ela considera indispensáveis à minha sobrevivência foi a única forma de a reconfortar.

Um amigo pediu-me: “Tens de fazer um blogue, mas não é para contares a História da Guiné-Bissau, queremos é saber das tuas estórias”. O brancon’pelele (“branco muito branco” em crioulo) está aqui para isso. É só a electricidade e a internet colaborarem.

O avião está quase a partir. Só preciso de dizer mais isto: Obrigada, Daniel! “Será que é esta a tua oportunidade?”, perguntavas no email que me enviaste com o anúncio de emprego. Foi mesmo.

3 thoughts on “

  1. Após o jantar , a sobremesa foi deliciosa! Obrigada!
    Esperava ler apenas a resposta ao mail que te enviei e diverti-me a sério com a leitura do que escreveste no teu blog. Bj. Helena.

  2. Boa viagem. E fica com este poema do García Márquez…

    Viajar

    Viajar es marcharse de casa,
    es dejar los amigos
    es intentar volar;
    volar conociendo otras ramas
    recorriendo caminos
    es intentar cambiar.

    Viajar es vestirse de loco
    es decir “no me importa”
    es querer regresar.
    Regresar valorando lo poco
    saboreando una copa,
    es desear empezar.

    Viajar es sentirse poeta,
    escribir una carta,
    es querer abrazar.
    Abrazar al llegar a una puerta
    añorando la calma
    es dejarse besar.

    Viajar es volverse mundano
    es conocer otra gente
    es volver a empezar.
    Empezar extendiendo la mano,
    aprendiendo del fuerte,
    es sentir soledad.

    Viajar es marcharse de casa,
    es vestirse de loco
    diciendo todo y nada en una postal.
    Es dormir en otra cama,
    sentir que el tiempo es corto,
    viajar es regresar.

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