Já cá estou…

Numa pensão muito catita, deitada num colchão meio esponjoso que me faz recordar as sestas que dormia em casa da minha avó quando era miúda. Isto depois de ter travado uma guerra com um bicho rastejante da família das aranhas. Acertei-lhe três vezes com a toalha de rosto e o desgraçado lá sucumbiu. Como a possibilidade do espécime ressuscitar das cinzas não me ia deixar dormir, dei-lhe o golpe fatal: fechei os olhos e, com toda a força, pisei-o até ouvir um “claque” estaladiço. Entretanto, também já matei para aí uma meia-dúzia de seres que voam, alguns dos quais descaradamente alojados dentro dos lençóis,  e rezo agora aos santinhos para que mais nenhum bicho engrace comigo ou com os meus pertences.

Tenho ainda de apresentar-vos o meu anjo da guarda: a Aissatu, uma guineense linda, prima de uma amiga dos tempos de escola que me foi esperar ao aeroporto e me evitou o baque inicial com Bissau. “Estás cheia de sorte, hoje há luz para te receber”, disse enquanto apontava para os candeeiros da estrada ao mesmo tempo que se desviava dos inúmeros buracos no asfalto. “Isto é muito pobre, mas vivemos bem. As famílias ajudam-se, são muito unidas. Estive uma semana em Portugal no Verão e vim de lá a pensar que aquilo está mesmo mal, o povo só se queixa. Pelo menos aqui, conseguimos viver felizes”, atirou. É incrível como o comentário da Aissatu nos faz colocar tudo em perspectiva (quando lhe perguntei o que queria de Portugal e me pediu “duas caixas de chocolate Guylian”, vi logo que só podia ser boa pessoa).

Bom, estou mesmo a sentir as pilhas a descarregar e amanhã (hoje?) é dia de pica-boi! Agora que já enchi o corpo com repelente, enfiei os sapatos dentro de sacos de plásticos, fechei todos os fechos das malas e lavei os dentes com água do Luso, vou só dormir um bocadinho, está bem? Isto se o senhor recepcionista deixar: Entre as 3h30 e as 4 da manhã (sim, da madrugada!) já veio pedir o passaporte, entregar o passaporte, devolver o troco e depois deixar o recibo, perguntar se o ar condicionado estava frio o suficiente e agora mesmo acabou de ligar com um “desculpe lá se já dorme, mas a internet já está a funcionar”.

p.s Como ainda não consegui internet para publicar o texto, fica a actualização: o recepcionista é mesmo um fofinho. Hoje às oito da manhã  o telefone começou a guinchar. Eu com a sensação que tinha acabado de adormecer, ele cheio de energia e com um sorriso nos lábios que lhe pude adivinhar através do auscultador: “Madame Sofia, o pequeno-almoço está pronto. Prontíssimo, venha!”. Fiquei também a saber que, afinal, a internet no hotel é uma miragem.

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