A Keuté e o mistério da sobrevivência na Guiné

Quarta-feira depois do trabalho – na altura em que ainda era bebé e não sabia andar – cheguei ao hotel e tinha à minha espera a Keuté e o seu sorriso rasgado: “Olá Sofia, já conheces o centro? Se quiseres, vou deixar a recepção agora, é só trocar de roupa…”  Hospede única para pelo menos 12 empregados diários, era uma espécie de estrela da companhia: Toda a gente sabia o meu nome, me abria a porta para passar e até o gerente, um homem engravatado que nunca tinha visto mais gordo, me abordou um dia na rua e perguntou: Você é que é a Dra. Sofia? Eu sou o gerente do Bissamar, ainda não tinha tido o prazer de a cumprimentar, muito gosto, estamos muito contentes por recebê-la. A sensação de pertencer à realeza deve ser mais ou menos esta.

O desafio da Keuté era mesmo o que queria ouvir. Fomos à lota do peixe, à zona das mercearias e ainda fiquei a saber onde era o banco e alguns dos bares in aqui do sítio. Valeu por isso, mas sobretudo porque me contou a sua história:

Alta, magra, de sorriso fácil e olhos muito grandes, Keuté é uma mulher bonita, sensual, que transpira boa energia. Traz vestidas umas calças de ganga justas (só de pensar começo já a suar em bica), uma túnica e sandálias de enfiar no dedo. As argolas grandes cor de prata dão o toque final. Um modelo que tinha ido buscar ao centro de ajuda da zona onde vive, mas podia ser de qualquer loja da Zara. Com 32 anos, só saiu da Guiné uma vez, quando foi estudar para o Senegal, mas na mesma altura a mãe morreu e teve de regressar. Trabalha como recepcionista do Bissamar sete dias por semana, oito horas por dia sem direito a pausa para comer. “Também não me importo, como pouco, às vezes chego a casa tomo um copo de leite e durmo. A minha comida preferida é salada com tomate e pepino. Não gosto de carne”.

Keuté ganha num mês o mesmo que me custam duas noites no hotel – 75 mil francos (cerca de 90 euros). Divorciada, tem um filho de oito anos a quem prefere pagar uma escola privada que lhe custa 7 mil francos por mês: “Só pago e espero ver o resultado ao fim do ano. O ensino não funciona, antigamente era greve todas as semanas, agora é dia sim, dia sim. Mas temos sorte porque este padre não leva tão caro como outras escolas. A educação é precisa, melhor do que passar o dia todo a jogar futebol”.

Em casa não tem água nem luz (a electricidade é carregada com um cartão – como se fosse um telemóvel – e custa 5 mil francos por cada quatro dias), por isso, quando precisa de conservar alimentos deixa-os no frigorífico do irmão mais velho. Sabe que a água da torneira “faz muito mal”, mas caso se desse ao luxo de comprar uma garrafa de água de 1,5 litros por dia, estaria a hipotecar à partida 20% do seu salário. “Só compro dos pacotinhos [água filtrada, mais barata do que a de garrafa] para o meu filho porque na escola os miúdos bebem todos do mesmo alguidar e tem havido um grande surto de cólera, enquanto puder quero evitar isso…”

O sol escaldava, tínhamos mesmo de fazer uma pausa. Sentámo-nos na esplanada de um café e a Keuté disse logo que só queria descansar, não tinha sede. Obriguei-a a pedir uma bebida, afinal era o mínimo que podia fazer para agradecer à minha guia privada. Escolheu uma Coca-Cola e antes de beber o primeiro gole atirou: “Faço um esforço para pagar a escola privada de contabilidade, lá no centro, porque quero estudar e sair daqui. Todos os dias rezo para alguém me tirar da Guiné. Não há futuro, trabalhamos, trabalhamos, e nunca temos dinheiro para nada. Sem pai, mãe,  e um filho para criar, é muito difícil. Se tivermos uma mãe, podemos estar a 7 milhões de km de distância, mas olhamos para trás e há sempre alguém. Eu não tenho nada, só posso contar comigo.”

Voltámos de taxi para casa, pelo caminho lembrei-me que me tinha confessado ser “apaixonada por bolachas” (é raro um guineense comum entrar numa mercearia – todos os produtos são importados e com preços mais caros do que os de Portugal, aquilo que comem é praticamente o que cultivam e trocam). Ofereci-lhe as línguas de gato que tinha acabado de comprar e só ao fim de muito insistir consegui que agarrasse no saco. Agradeceu-me mil vezes, disse-lhe que eu é que lhe tinha de dizer obrigada por me ter liberto das quatro paredes do quarto do Bissamar (o povo da Guiné tem baixa auto-estima e uma quase reverência à comunidade internacional).

Vim para casa a pensar que aquele pacote de línguas de gato tinha custado o mesmo que Keuté ganha depois de trabalhar um dia, oito horas seguidas sem pausa para comer. Tenho o seu número de telefone, fiquei de lhe ligar… Até hoje, ainda não ganhei coragem para a conhecer melhor.

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