Relatório de uma pata-choca dançante

Sábado fui à discoteca e fiz das figuras mais tristes de que tenho memória. Vim armadilhada como se fosse entrar numa expedição do Robinson Crusué: canivete suiço, repelentes vários, botas de mato e roupa verde-tropa ou branco-sujo. Esqueci-me que talvez não fosse má ideia ter um trapito para ir abanar a anca. Quer dizer, esqueci-me não, fui na conversa do “ah, lá não podes mostrar as pernas”, “ah, nem penses em andar com os braços ao léu que és logo picada pelos mosquitos”, “vai para lá de saltos altos, vai e depois diz que voltas sem uma perna…”

Pois. Venham cá vocês sentir este bafo e depois digam-me se conseguem não mostrar as pernas, andar de mangas compridas ou sequer pensar em vestir umas calças de ganga. Mil vezes malária.  Isto para dizer que no sábado, antes de me vestir para sair, decidi reunir todos os conselhos que recebi num só ser: eu!

Enchi-me de repelente, vesti umas calças e uma camisa de manga comprida, soltei o cabelo para o pescoço não ficar ao léu e finalizei o ramalhete com os meus sapatos castanhos todo-o-terreno. Era a Dora, a exploradora, em versão humana (e olhem lá, que ela usa calções). Antes de fechar a porta de casa pensei “que grande trambolho!”, mas pronto se é para não ficar doente, ser picada ou abordada na rua, vale a pena.

As cenas que se seguiram são demasiado humilhantes, por isso, vou tentar contá-las o mais rápido que posso: Cheguei à discoteca e só havia mulheres lindas, com saias mais curtas do que muitos cintos meus e saltos vertiginosamente altos e sexy. Mexiam-se como se não tivessem ossos e faziam o favor de se roçar em mim e obrigar-me a repetir os seus Beyoncé moves (prefiro não pensar nesta imagem muito tempo), que nem com treinos diários de oito horas alguma vez serei capaz de reproduzir. Era a lanterna do sítio, completamente impossível passar despercebida. Quanto mais me tentava esconder, mais ouvia: “não sejas tímida, anda amiga, anda!” E eu só conseguia pensar: “Vai lá trambolho, vai lá se não ainda é pior.”

Depois do Kuduro, veio o Funaná e outros ritmos que não fui capaz de identificar. Quando chegou a Kisomba respirei fundo: “Ufa, agora são só casais!” Mas qual quê. Confesso que a sensualidade da dança era tal que chegou uma altura que até aqui a Dora, a exploradora, teve vontade de dançar. Comecei mal: com um português que sabia menos passos do que eu. Acabei bem: com um guineense que vivia em Londres e estava aqui de férias. Guiou-me como se em vez de pés, tivesse luvas, umas luvas todo-o-terreno, ok!

Nunca tinha dançado com ninguém que se movesse tão bem, com tanta sensualidade. Nunca tinha visto tanta gente amadora junta a dançar como não conseguem muitos profissionais. Saí dali com duas certezas: Vou comprar uns saltos e inscrever-me nas aulas de dança africana.

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