Nunca pensei que fazer compras pudesse ser tão difícil

Distinguir o que eram lojas e que tipo de produtos vendiam foi do que mais me custou a encaixar. Olhava para as portas das barracas ou para as vitrinas dos prédios devolutos e parecia-me tudo o mesmo. Diziam-me “ali podes mandar fazer chaves”, “naquele supermercado compras iogurtes naturais quando há”. “Colchões é na Nunos&Irmãos”, “electrodomésticos no edifício Ancar” e “no mercado do Bandim há de tudo um pouco”. Depois, à venda na rua, pode encontrar-se de tudo, das bananas aos amendoins, passando pelos camarões.

E decorar tantos nomes novos? E ter confiança para entrar estaminé a dentro e dizer “quero leite, cereais e bolachas” quando o local em si, visto de fora, me parecia os armazéns usados nas aldeias para guardar excedentes agrícolas? Ao fim de uma semana, já farta de estar dependente sempre que precisava de alguma coisa, pus-me a pensar sobre o assunto.

No fundo, a lógica de fazer compras na Guiné-Bissau não é assim tão diferente da praticada em Portugal na década de 80 e início dos anos 90. A minha mãe quando queria toalhas ou lençóis de qualidade ia ao “Zé dos enxovais”, pratos e talheres eram na “D. Adelaide”, roupa de criança na “Tina” e de adulto nos “Pereiras”, os bolos só podiam ser da “Nortejo” e o peixe e marisco da “peixaria do Coreto”. A diferença aqui é que entre o quiosque do costureiro, do carpinteiro e da senhora que faz sandes não existe grande distinção física.

Passei a apontar todos os nomes-chave no meu caderninho. A cada objecto, correspondia um local. Agora já sei que verduras e legumes encontro no Mercado Central, que o melhor peixe está de manhã na Lota, que na mercearia Bonjour há especiarias e que o indiano da Praça vende espelhos e ferramentas várias. Faltam-me a carne, os congelados e a roupa. Acho que congelados não existem mesmo porque como a electricidade está sempre a faltar seria impossível manter as arcas frigoríficas (as mercearias vendem apenas produtos não perecíveis). Quanto à carne, bom, já a vi várias vezes à venda, cheia de moscas em cima de uma bancada, pelo que prefiro comê-la sem ter de a cozinhar e não pensar mais no assunto.

A roupa é outro desafio. Existem algumas boutiques – com a roupa barata da Zara a preços astronómicos. Tudo o resto é em segunda-mão e pode encontrar-se nos mercados – sabem as roupas e sapatos que enviamos para África para serem dados à população? Pois…

Confesso que desde sempre me fez confusão comprar vestuário em segunda-mão (cada um com as suas manias) e estou mesmo a precisar de uma roupa que não seja a de ir ao forno, por isso, perguntei à Aissatu (que anda sempre toda jeitosa o raio da miúda) como fazia: “Quando vou a Portugal trago vários exemplares do mesmo modelo com cores diferentes, encomendo pela internet e peço à minha família para enviar ou mando  fazer no costureiro.”

Adorei a ideia do costureiro. No fim-de-semana passado fomos ao Bandim e comprámos as duas tecido para mandar fazer vestidos. Já me disseram que a coisa pode correr muito bem ou muito mal e é sempre melhor quando se leva um modelo para ser só copiar. Amanhã vamos visitar o senhor, tirar medidas e explicar o que queremos. Deposito nele muita fé, até porque a Aissatu me disse que era bom e costuma cumprir prazos (um verdadeiro diamante em bruto na Guiné, portanto).

Em baixo, podem ver o tecido que comprei e a forma que é suposto o dito ganhar. Em breve dou notícias sobre a transformação.

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