Alimentar o comércio cá da terra dá uma trabalheira desgraçada

Estamos a compor a nossa casa e queremos fazê-lo, quanto possível, made in Guiné. Quando cá cheguei, a Susana já tinha encomendado o móvel da cozinha e uma cama para o quarto. A entrega começou por atrasar dois dias, depois cinco, uma semana, e lá continuávamos nós a cozinhar no chão. Quando finalmente chegou o grande momento, a coisa não correu lá muito bem.

O tampo está bonitinho como se queria mas em baixo, em vez de duas prateleiras de madeira nova, veio uma prateleira de PVC velho e sujo. A Susana dizia ao Sr. carpinteiro que tinha pago duas prateleiras novas de madeira e que só tinha uma velha de PVC, o carpinteiro dizia que o PVC era madeira e só fazia uma prateleira, a Susana ameaçou que não lhe pagava os 30 mil francos que ainda lhe devia e no dia seguinte, a um sábado, o carpinteiro foi bater lá à porta a gritar que queria o dinheiro ou entrava casa a dentro e levava a cama do quarto dela. Só quem estava era o Manel que avisou o carpinteiro que ali só entraria se fosse buscar uma catana para lhe bater, isto enquanto a Susana gritava com o carpinteiro ao telefone e lhe dizia que, se ele entrasse, ia chamar a polícia. Uma canseira que acabou como já se previa: a Susana pagou-lhe o dinheiro que faltava e nós ficámos com a pseudo-prateleira.

Imaginam o que é montar uma casa sem IKEA ou lojas do género? Uma loucura à qual se devem juntar outros constrangimentos. Começamos logo pelo conceito de eficiência, olho para  cinco pessoas a trabalhar e penso sempre “com um bocadinho mais de genica a coisa fazia-se só com duas mãos”, depois os prazos… Quando um guineense diz amanhã, pode ser para a semana, para o mês que vêm, ou para nunca mesmo.

Mas, queixinhas à parte, eu precisava mesmo de um móvel e decidi encomendar uma estante de bambu. Depois da cena do carpinteiro, já ia preparada: “Dia 5 está pronto…” “Dia 5? Dia 5 ou dia 15?” “Juro!” Aparentemente houve um pequeno atraso na entrega do bambu, a coisa não se deu no dia 5, mas dia 9 lá estava ela, lindinha, quase direita, a servir a sua função.

Se ontem não tivesse percebido que a excursão de formigas que tem chegado em peregrinação ao  quarto durante a última semana se está  a apoderar das palhinhas do meu móvel, esta seria uma história com final feliz.

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