Kéré: como o paraíso se tornou num pesadelo

Tinha um texto de oito parágrafos escrito sobre Kéré. Bonito, filosófico, se calhar até um bocado chato, vá. Não o guardei, pus-me a fazer mais 500 coisas e fechei a página. Isto a juntar à semana de cão, dos rafeiros mesmo, que tenho tido. Estou com tanta, mas tanta raiva, que voltar a tentar reproduzir a coisa até me causa náuseas. Damos o assunto Kéré por encerrado com as fotografias e não falamos mais nisso, está bem?

Digo-vos só que é um dos sítios mais fascinantes onde já tive oportunidade de estar.  Sabem aquela sensação de serem tocados por algo tão visceralmente belo que causa uma quase incontrolável vontade de chorar? Foi assim que me senti quando vi uma superfície minúscula coberta de areia ali no meio do oceano. Lembrei-me da minha professora de Filosofia do Secundário, a Ana Santos. De Platão e do seu Fédon, de como o conceito de beleza é tão transcendente, sublime, transversal ao Homem.

A ilha fica ali ao Km 240 da auto-estrada Oceano Atlântico. Entra-se no Porto de Quinhámel,  anda-se duas horas de barco com vento a bater na cara e ondas tão fortes que a hipótese daquela coisa virar e irmos todos dar de comer aos peixinhos não sai da cabeça em nenhum momento. “Vamos morreeer”, dizia a Susana a brincar. Ela achava que morreríamos afogados, eu com a coluna partida num dos muitos embates violentos com as tábuas de madeira que faziam de banco.

Do fim-de-semana destaco três coisas:

  • O cozinheiro. Só confecciona peixe e marisco, sempre acabado de sair do mar. Hamburger de peixe, rolinhos de peixe com ovo, sopa de peixe, carpaccio de peixe… Pratos que poderiam vir num menu do El Buli. “Fizeste alguma formação?” “Não, apenas trabalhei num restaurante em Bissau. Este foi o dom que Deus me deu”.
  • O espírito de passarinho do” dono” de Kéré  (a ilha não tem absolutamente mais nada além do hotel). Um francês de meia idade que vive na Guiné há 10 anos porque se apaixonou duplamente – por África e pela mulher –  e  diz que “há algo de muito doido na forma como os europeus vivem”.
  • O meu despertar: acordava, olhava para a paisagem sufocante que entrava pela janela e pensava como já tinha dado 2012 como perdido, como ainda há um mês definhava num escritório e agora estava ali, a respirar o ar de África. Logo a seguir, era também invadida por um vazio enorme. É incrível como podemos estar no sítio mais belo à face da terra e sentir toda a sua magia a escapar-nos entre os dedos se não tivermos ao nosso lado ninguém especial com quem o partilhar.

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