“Ébano – Febre Africana”

Acabei de ler “Ébano – Febre Africana” do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski. A Susana vendeu-mo como um livro imprescindível que explica muito disto do que é “ser africano” e de como há uma entidade comum a todo o continente.

Adorei, diz muito de África, verdade. Mas também da Europa e da forma alucinante como vivemos. Destaco este excerto:

“Os europeus e os africanos têm noções de tempo completamente distintas. A percepção que têm do tempo é diferente, como é diferente a relação que com ele mantêm. O europeu está convencido de que o tempo tem uma existência exterior a ele próprio, uma existência objectiva e com uma natureza mensurável e linear. (…) O europeu vê-se a si próprio como um escravo do tempo, está dependente dele, é-lhe submisso. (…) Tem de respeitar prazos, datas, dias e horas.  Move-se dentro da máquina do tempo, não pode existir fora dela. Esta máquina impõe-lhe as suas obrigações, exigências e normas. Entre o homem e o tempo paira um conflito irresolúvel, que termina sempre com a derrota do homem – o tempo destrói-o. (…) [Para o africano] O tempo é uma matéria que pode, sob influência nossa, ser constantemente animada de vida, que mergulha, contudo, num estado de sono profundo ou não-existência, mal abdicamos da nossa energia. O tempo é uma categoria passiva e, acima de tudo, dependente do homem. (…) Passando da teoria à práctica: quando chegamos a uma aldeia, na qual vai haver uma reunião durante a tarde, e não encontramos ninguém no local do encontro, não vale a pena perguntar: Quando é que a reunião começa? A resposta é, pois, já sobejamente conhecida: Quando todos estiverem presente. Daí que o africano, depois de entrar num autocarro, nunca pergunte quando vai partir, entra, senta-se num lugar livre e passa imediatamente a um estado no qual passa uma grande parte da sua vida – à espera.”

One thought on ““Ébano – Febre Africana”

  1. Uau, genial! Vi muito do brasileiro no africano, ainda que estejamos no europeu também. Temos uma relação com o tempo que varia mais de pessoa a pessoa. E, apesar de nos sentirmos escravos dele, sabemos que podemos dar-lhe a volta por muitas e muitas vezes…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s