Cocós e Jesus no mesmo dia

menina

Quarta-feira penso ter atingido o topo da minha carreira, por mais que me esforce dificilmente voltarei a ter uma jornada profissional tão completa. Comecei o dia a ver crianças a fazer cocó e acabei-o na companhia de Jesus.

Fui para Cachungo fotografar boas e más práticas de higiene nas escolas. E sim, uma dúzia de putos de olhos e sorriso grandes a tomar banho num charco, a ensaboar-se, a comer na cantina ou a tirar água do furo é coisa linda, linda, de se ver. Mas quando toca a fotografá-los no meio do mato a fazer as suas necessidades, é feio, cheira mal e rouba-nos a vontade de comer.

menino na água

Pior – foi aqui que perdi a pouca dignidade que ainda me restava – tive de esperar que a mosca fosse pousar no dito do cocó para “clac”, venha de lá a bela imagem directamente para o manual que vai dizer aos senhores professores aquilo que os meninos devem e não devem fazer.

A meio da tarde já estava com muito pouca paciência para miúdos (gosto muito deles até aos quatro anos quando cheiram a bebé, fazem poucas perguntas e não se armam aos cucos, depois disso é devolvê-los à precedência). É que já não os podia ouvir: “Aqui, aqui, olha eu aqui. Patroa, patroa, patroa… Branca!”. E abriam os braços, e saltavam uns em cima dos outros e atiravam-se para o chão e… Uf, bem, valia tudo para aparecer na fotografia.

Cheguei ao hotel mais morta que viva até que começo a ouvir uma música alta que parecia vir de bastante perto. “É o Jesus que cura”, elucida-me a D. Anna. Era impossível ainda não ter visto os cartazes fluorescentes do engodo espalhados por todo o país. Um homem mestiço, caga-tacos e de bigodinho que diz ter em si o Jesus. E atenção que não é um Jesus qualquer, este cura.

jesus que cura

“Vamos lá ver? Eu sou muito espirituosa”, desafiou-me. Eu que não sou nada espirituosa mas muito curiosa, disse logo que sim (também depois de passar o dia a ver cocó, que coisa pior me podia acontecer?).

Bom, a verdade é que aconteceu mesmo. Aquele homem pequenino começou a contar a história da mulher de um amigo que tinha um amante. E só ele, o Jesus, é que sabia do segredo. E depois perguntava aos berros à centena de pessoas que tinha na plateia: “QUEM DE VOCÊS NÃO PECOU LEVANTE O BRAÇO. QUEM DE VOCÊS JÁ NÃO FOI COMO A MULHER DESTE MEU AMIGO, SE PRENUNCIE. VOCÊS SÃO PECADORES E SÓ JESUS VOS PODE SALVAR. CLAP FOR JESUS! CLAP FOR JESUS!” Ralhava, gritava, ameaçava as pessoas. Esperneava e dava aos braços como se estivesse possuído, mas pelo diabo. Era eu a pensar “mas que grande pulha” e a D. Anna a olhar para mim incrédula com a minha falta de fé: “Sofia, levante as mãos para receber Jesus, levante as mãos que ele cura”.

Ficámos até ao fim. Já só me perguntava o que me tinha passado pela cabeça para ir acabar o dia ali quando tinha o corpo mais amassado que papa. Enquanto a D. Anna cantava, levantava os braços e – porque era impossível não o fazer – se ria à gargalhada de algumas das tretas proferidas pelo Jesus. Um Jesus que apesar de reunir em sim uma série de dons, não era poliglota. Só falava inglês e tinha dois tradutores, um de crioulo e outro de manjaco (o meu respect vai para estes dois senhores). Pelo que, não assisti a um, não assisti a dois, mas assisti a três espectáculos deprimentes.

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