Um amor que faz sofrer

Fui a correr ao supermercado comprar cereais, bolachas e vinho branco para o almoço (que está a ter no momento em que vos escrevo efeitos bastante interessantes nos meus colegas de casa). Já levava a carapaça com o computador às costas, mais a mala, mais os sacos. Uma pequena burra de carga a suar em bica, portanto. A muito esforço lá consegui entrar no táxi (que aqui são comunitários), ajeitar tudo aos pés e acomodar o rabiosque. Ainda na mesma rua, entra um guineense mais ou menos da minha idade que não pára de me observar como se fosse bicho raro:

– Posso saber o teu nome?

– Sofia e o teu?

– (já não me lembro mas era qualquer coisa entre Mamadou e Amadou)

– És portuguesa?

– Sou, e tu cá da terra, é?

– De Bissau com muito orgulho.

Adoro andar de táxi aqui, os carros todos partidos e com música alta relaxam-me e a cereja no topo do bolo é poder conhecer pessoas e meter conversa, mas pensava que  o diálogo com o cachopo tinha ficado por ali. Passados uns segundos, começo a ouvir muito baixinho: “És linda… És linda… És linda… Gosto de ti”. Rio-me e agradeço. “Gosto de ti, mas é que gosto mesmo de ti”. Volto a agradecer. “És linda”. Rio-me.

– Podes dar-me o teu número de telemóvel?

– Não, isso não, tenho o meu marido em casa.  Depois vê as tuas mensagens e o que é que eu digo?, respondo na brincadeira.

– Eu também tenho mulher, mas não faz mal, eu gosto de ti.

– Não, não pode ser.

– Ajuda-me.

– Ajudo-te?

– Estou a sofrer, o que é que eu faço agora?

– (rio-me) Isso é um problema que tens de resolver sozinho, não te posso ajudar. Mas tenho a certeza que já passa.

– Ajuda-me. Estou a sofrer.

Já só me conseguia rir enquanto me encostava o máximo que podia ao outro lado do banco traseiro. Chegamos finalmente a minha casa, espero que o Mamadou/Amadou saia para poder passar. Desvio o olhar na carteira, pago a corrida, e quando dou por mim tenho o Mamadou/Amadou ajoelhado no chão a agarrar-me a mão:

– Gosto de ti, vou sofrer, ajuda-me.

– Olha, sofre que eu também sofro (foi uma frase pouco feliz, bem sei, mas já estava a ficar nervosa com a situação). Um dia passa, quer dizer, a ti deve passar-te já na próxima curva. Adeus Mamadou/Amadou, foi um prazer conhecer-te.

– Vou sofrer. Gosto de ti.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s