Pombas livres VS Canários de gaiola

Os miúdos na Guiné não são o centro das atenções na vida dos adultos e isso faz toda a diferença. É possível passar uma tarde inteira rodeada de crianças sem que estas interrompam uma única vez. São independentes desde pequeninas, aprendem a brincar sem que ninguém tenha de lhes ensinar, choram pouco, quase não fazem birras.

Os pais destes miúdos conseguem ter diversas conversas que não se prendam com o cocó do seu bebé, a primeira palavra do petiz ou as milhares de gracinhas que este faz ao longo do dia. Os pais destes miúdos são primeiro pessoas e só depois pais, como tal, têm uma série de outros assuntos para discutir além dos malabarismos únicos e nunca antes vistos da sua criança.

As crianças caiem e levantam-se, fazem feridas que, espanto dos espantos, se curam, brincam com os animais, sobem às árvores e entretêm-se com pouco. Riem muito, jogam futebol, surpreendem-se com  quase nada. Estudam pouco e começam a trabalhar demasiado cedo, é verdade.

O tipo de educação das crianças em África está no pólo oposto à da Europa. Nós europeus, que enchemos os nossos miúdos com actividades extra que os fazem passar o dia a correr de um lado para o outro, que preferimos vê-los sossegados ao computador a jogar à bola na rua, que vivemos em função deles como se já não cá andássemos antes do seu real nascimento, não percebemos os pais africanos e julgamos com o simplismo que só o desconhecimento consegue: “Eles têm uma relação diferente com os filhos, não são tão próximos”. Como quem diz “nós gostamos muito mais dos nossos filhos do que eles dos deles”.

E não podíamos estar mais enganados. Para os africanos, os filhos são a felicidade da família. Uma família sem crianças não está completa. Quantas mais melhor. São o garante de uma velhice acompanhada e sem miséria. As suas famílias são alargadas e genuinamente unidas: um miúdo pode tranquilamente viver em casa da tia, da prima ou da avó, será tratado como um filho. Para eles, uma criança não é um peso que lhes vai limitar a vida, mas um acrescento de felicidade.

O conceito de ter um só  filho para nele concentrar tudo do bom e do melhor é difícil de entender por cá. Para mim, que não sou mãe e devo perceber muito pouco disto, diria que as crianças aqui são menos esquizofrénicas, mais livres, suportáveis, menos pesadas. Se um dia tiver um filho, gostava que a sua essência fosse a do miúdo pomba livre africano e não a do miúdo canário de gaiola europeu.

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