Passagem das horas

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(…)

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei… 
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos… 
Experimentei mais sensações do que todas as sensações quesenti, 
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir 
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz. 

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me, 
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge, 
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso, 
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas, 
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada, 
Deste desassossego no fundo de todos os cálices, 
Desta angústia no fundo de todos os prazeres, 
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas, 
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias. 

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim. 
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei 
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência, 
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque 
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos, 
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

(…)

Álvaro de Campos

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