Ser jornalista na Guiné

Os guineenses são entrevistados difíceis como tudo. “Ai queres saber tanta coisa, fazes tantas perguntas, que é que interessa onde escondo as prendas de Natal dos meus filhos?”, refilam comigo. Imagino que a vontade deles seria chamarem-me cusca, mas por respeito e vergonha ficam-se por ali. Simpáticos e sempre a rir não gostam que lhes esgravatem a intimidade, que os esmiucem, mesmo que o assunto seja o mais banal do mundo. Eu desculpo-me com o facto de não ser da terra, de no meu país ser tudo diferente, de ser muito curiosa e, por isso,  querer saber os tim-tins dos tim-tins. Eles perdoam-me e, como quem não quer a coisa, lá os vou fazendo falar.

Depois há a parte infinitamente boa: em dois minutos conseguimos chegar ao chefe, ao presidente, ao administrador, ao responsável… Basta perguntar ao colega de trabalho ou ao taxista, eles vão conhecer alguém que conhece alguém que nos põe lá num ápice. “Uma fonte leva à outra”, dizia o António Granado nas suas aulas.  Aqui na Guiné a máxima é mais “qualquer fonte te pode levar onde queres”.

Duvidam? Ontem na aula de crioulo perguntei ao Quebá se conhecia alguém na polícia que me pudesse falar sobre o aumento dos roubos na altura do Natal. Hoje de manhã, mais propriamente às 10h30, estava a falar com o Comissário Nacional de Ordem Pública da Guiné que não só me contou a sua experiência como ainda me arranjou números (leram bem, números!, essa coisa sempre tão rara de conseguir sobretudo num país como este).

Mais logo vou falar com um escritor e jornalista que é sogro de um conhecido de um amigo e depois encontrar-me com o irmão do taxista que me trouxe hoje da Praça porque ele é muçulmano e  a mulher e as filhas católicas praticantes, ou seja, no Natal deve viver-se uma grande miscórdia lá por casa.

Ao início, ser jornalista na Guiné é equivalente ao trabalho de uma picadora de gelo,  pouco a pouco lá vão saltando umas pedrinhas que ajudam a compor a história. Mas depois, depois é só deixarmo-nos levar de fonte em fonte como se fosse um carrossel. O difícil mesmo é saber onde pôr o ponto final.

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