O meu pai

O meu pai é para aí a milhas de distância do segundo lugar (sim mãe, não fiques com ciúmes, tu estás no mesmo patamar) a pessoa mais importante da minha vida. Pão duro que só ele, gosta que os outros pensem que é feito de pedra, mas vai-se a ver é mais esponjoso do que aquelas gomas brancas e cor-de-rosa.

Durante esta semana o meu pai já me disse mais de cinco vezes que tem saudades minhas. Nunca me lembro de o ter ouvido dizer-me isto, pode ser que a facilidade da escrita pelo Skype o tenha feito exprimir-se melhor.  Cá para mim já estão é a ressacar de ter lá casa a “espalha-brasas”, “a burra do alto fica que onde lá vai, lá fica”, “o trovão” e outras coisas amorosas que me chamam.

Há uns dois anos, escrevi este texto sobre o meu pai. Continua actual:

No dia em que nasci, obrigaste a mãe a reprimir as dores de parto porque tinhas de ir abrir a obra aos teus empregados. Aquela meia hora fez a diferença e quase que fui desta para melhor com o cordão umbilical enrolado ao pescoço.

Perdoei-te, sei que não fizeste por mal. Desde que te conheço, tinhas ainda 27 anos e o cabelo negro e farto, que és um viciado em trabalho. Primeiro as obrigações. Lição de vida número um: há que saber esperar.

Para comemorar, compraste um vídeo e uma aparelhagem, tudo xpto. Sempre foste forreta mas quando te decidias, era a valer. Querias que ouvisse música e pudesse ver desenhos animados. Gravaste-me cassetes e cassetes do Tom Sawyer e do Inspector Gadget. Quando fiz 10 anos, ofereceste-me a primeira bicicleta, objecto que quase me deixou sem dentes. Mais tarde, vim a saber que eram as três coisas que gostavas de ter tido em miúdo, em vez dos carrinhos feitos de pedra e dos ombros calejados da palha do burro.

Durante anos, esperei com ânsia o momento em que os ponteiros do relógio tocavam as sete da tarde. Era a hora em que chegavas a casa, abrias os braços e eu corria para ti para logo me enfiares dentro do pote de loiça da sala, donde só ficava a sobrar a minha minúscula cabeça. Era da praxe.

Depois veio a adolescência e, sem nunca deixar de te reconhecer o mérito, não percebia muitas coisas. Porque não me compravas as roupas e os ténis de marca que queria. Porque não me deixavas sair à noite sem antes ouvir um sermão. Ou porque não me deixavas ir de férias com o meu namorado de há alguns anos.

Cedi daqui, cedeste dali, e hoje, salvo raras excepções, não resta um pingo da raiva que admito ter sentido. Voltou a admiração e um novo sentimento: o medo. O que construíste, a paciência que tens para a mãe e para mim, o teu altruísmo, orgulham-me. De uma maneira que me faz inchar o peito. E é por isso que, ao notar-te entradas no cabelo já pintalgado de branco, um cansaço a que não me tinhas habituado ao fim do dia e alguma nostalgia, fico assustada.

Os anos amansaram-te. Eras osso duro de roer e a vida transformou-te num homem sensível e romântico e isso também é assustador. Já não me enfias dentro do pote, mas acho que gosto mais de ti assim. Contigo aprendi as lições mais importantes e as brincadeiras mais parvas. És a minha base, a primeira palavra que pronunciei: Aires. Pai.

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