E se eu tomar um drunfozinho e acordar só no dia 2?

Odeio a noite de passagem de ano. Odeio o dia 31. Odeio que me imponham o meu próprio estado de espírito. Odeio a ditadura da festa: que diz que temos de estar todos felizes e bonitos e cheirosos e divertidos e com um sorriso de orelha a orelha. E quanto mais me perguntam “o que é que tens?”, mais vontade tenho de me enfiar dentro dos lençóis polares a ver séries e acordar directamente no dia 2. É algo que se instala aqui entre a garganta e o estômago difícil de explicar.

Vou para a festa, pois claro, a sociedade diz-me que seria um ser deprimido e estranho se passasse a noite de passagem de ano debaixo das mantas. Uma festa dos anos 20, com amigos dos melhores que há. Uma peruca morena, uma cigarrilha, pena na tola e batom vermelho carregado, a tentar chegar aos calcanhares da Marion Cotillard do Midnight in Paris. Acima de tudo, uma peruca morena,  uma cigarrilha, uma pena na tola  e um batom vermelho carregado que me disfarcem a neura e me transformem noutra coisa qualquer.

Há anos que esta altura  é passada sempre com as mesmas pessoas. As minhas pessoas, as melhores do mundo e as únicas capazes de me aturar as filosofias baratas. As únicas com quem seria capaz de ir para a festa sem vontade nenhuma e ainda me divertir sem vontade nenhuma.

E depois os balanços do ano e os planos para 2013. Uma canseira. Importam-se que também eu faça um balanço rápido de 2012, para exorcizar a coisa?

Foi o ano de Barcelona e da Guiné. Foi o ano em que me aventurei sem ter cama feita ou sequer um colchão onde me deitar. Foi um ano de algumas alegrias e muitas angustias. Foi o ano do nó na garganta que nunca deixou de se fazer sentir. Foi o ano em que me senti a pessoa mais feliz do mundo num concerto do Daniel Johnston e, poucos dias depois, também a mais miserável. Foi o ano em que quase deixei de ter trabalho como jornalista freelancer e tive de deixar de fazer o que gostava para agarrar um emprego que odiava e depois, a dois meses do fim, voltar a largar tudo, mudar de continente, mudar de amigos, mudar de vida, para não deixar escapar aquela que foi a oportunidade de 2012.

2012 foi um ano de altos e baixos, com o melhor e o pior. Foi sobretudo um ano de pessoas e para mim, que sou uma pessoa de pessoas, se não tivesse valido por mais nada, teria valido por isso.

Foi o ano em que perdi muitos medos e me atirei de cabeça. E, como diz a música do Jorge Palma que vi hoje partilhada no Facebook ,”imperdoável é o que não vivi (…) imperdoável é desistir de lutar, imperdoável é não perdoar (…)”. 2012 foi um ano bom e mau para caraças. Mas lá que vivi, vivi. E também lutei, de uma forma que achava não ser capaz.

Venha 2013, rapidamente e com um cabaz repleto de coisas boas. Para mim e para vocês!

2 thoughts on “E se eu tomar um drunfozinho e acordar só no dia 2?

  1. … e que ano! Só te digo uma coisa, Sofiazinha: claro que podes passar sozinha, debaixo das mantas. Eu já fiz isso e foi uma das melhores passagens de ano da minha vida. Aliás, uma das únicas que me lembro! As outras foram divertidas e animadas, mas essa foi especial. E partilho de todas as suas “inquietações” quanto à data, sabes disso. Por isso mesmo só decidi o que faria aos 45 da segunda etapa. E olhe lá se o farei mesmo… prum ano de altos e baixos, o que seria uma noite de baixos e altos?

    Que venha 2013! Obrigado por um estranho 2012 – mas o que somos senão pessoas estranhamente intensas?!

    <3 <3 <3

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