Vozes afectadas: são muitas e estão por toda a parte

Já aqui disse que a Guiné vale por muita coisa, sobretudo pelas pessoas. Simples, sempre com um sorriso, disponíveis. Abrem-vos a porta de casa e partilham o quase nada, um quase nada que é afinal o que de mais genuíno se pode partilhar com alguém: gargalhadas, sorrisos, conversas, estórias, arroz com carne de cabra e, se tiverem sorte, latas de Coca-cola ou sumo de manga e goiaba.

Haverá excepções, claro. Mas poucos serão os países do mundo em que os militares que estão a fazer a guarda da estrada mandam parar o carro e perguntam: “Qual é o teu clube de futebol?” E quando respondo “Sporting!” (paz à sua alma), o senhor armado quase entra pelo vidro do carro adentro só para me cumprimentar e finaliza toda a actuação com uma gargalhada estridente e um “boa viagem”  tão inspirador que contribui mesmo para que tenha uma boa viagem.

Isto tudo para dizer que a minha ingressão na Guiné (e o anterior convívio com as pessoas certas em Barcelona) me tinha feito esquecer dos emproados com vozes afectadas. Não sei se sou eu que tenho frequentado os sítios errados, cruzado com as pessoas erradas, mas os portugueses estão a ficar cada vez mais afectados, caraças. Com vozes afectadas, digo. Pior, acham que são superiores por isso, mas são apenas ridículos.

Que moda é esta de usar o nariz em vez das cordas vocais para falar? Há pessoas que nasceram assim, cresceram assim, são assim, e não podem fazer nada, é verdade. Mas comparável aos novos ricos, existem agora os novos “falo pelo nariz, parecendo que tenho uma batata na boca, só para ser queque”. E são muitos e estão espalhados por toda a parte.

Até no Martim Moniz, vejam só. Ontem fui tomar um café com amigos para conhecer as novas iguarias disponíveis nas barraquinhas da praça e acabo, também eu, afectada pela voz alta e nasalada do senhor do lado. Falava com duas idosas servindo-se de um “portuguese accent”  como se estas fossem o Barack Obama. Uma voz tão alta, tão nasalada, tão queque e tão nauseante que me impediu de concentrar no conteúdo do assunto debatido.

Bem sei que as teorias do “ser e do parecer” são várias e extensas. Bem sei que me apaixonei pel’ Os Maias e pelo Eça porque ele as descreve como ninguém. Bem sei que sempre os houve. Não precisam é de se disseminar. A mim só me apetece chegar perto, dar–lhes uma palmadinha nas costas e dizer: “Vá, agora que já deitaste a batata cá para fora, fala como deve de ser. Desce ao andar de baixo que não és pássaro para cagar de alto”.

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