Ter mundo

Roubei descaradamente esta crónica do site do Miguel Vale de Almeida porque a gostava de ter escrito eu. Cito-a na íntegra:

Ter mundo não é ter vivido no estrangeiro – sobretudo desprezando a cultura local e alimentando saudades de bacalhau. Ter mundo não é ter viajado muito – sobretudo para colocar alfinetes no mapa ou roubar toalhas do resort. Ter mundo não é falar línguas – sobretudo com uma imitação perfeita de um sotaque de classe ouvido numa série de TV, para grande risota dos nativos . Ter mundo não é ter um doutoramento – sobretudo sobre as enxadas dos camponeses do lago titicaca entre 1823 e 1888. Ter mundo não é defender uma grande causa, com grande desinteresse para com pessoas concretas. Ter mundo não é ter uma genealogia – sobretudo daquelas com muita sífilis no passado ou pedigrees racistas que escondem miscigenações várias. Ter mundo não é ter montes de dinheiro e consumir à fartazana – sobretudo quando o i-pad fica esquecido debaixo do sofá até a maria o varrer. Ter mundo não é conhecer imensa gente – ou foder com imensa gente – sobretudo quando na terça-feira seguinte já se lhes esqueceu o nome. Ter mundo não é saber qual o restaurante certo na última quinzena, o vinho coiso e tal ou que àquele bar já ninguém vai – sobretudo quando se tem de procurar ansiosamente essa informação. Ter mundo não é conhecer as pessoas certas, sobretudo quando – e é quase sempre – nunca se acerta. Ter mundo não é estar a par das notícias – sobretudo se elas forem dominadas pela eleição de um papa, pela cara de tozé seguro, pela gravidez de uma pop star ou pelo juro da dívida. Ter mundo não é confundir sistematicamente o desejo com a paixão, a paixão com o amor, o amor com a amizade e a amizade com a acquaintance. Ter mundo não é ter experimentado todas as drogas, sobretudo quando se fica com comichão crónica no nariz, o que é socialmente muito feio. Ter mundo não é gozar com quem se acha não ter mundo e  invejar quem se teme tê-lo mesmo. Ter mundo não é trabalhar para um belo corpinho e acabar como um belo porquinho porque não se percebeu que os genes não davam. Ter mundo não é ser muito artiste – sobretudo confundindo isso com ter um ar triste, assim como ter mundo não é ser muito louco – sobretudo confundido isso com ser muito oco. Ter mundo não é achar que ele é a minha ostra, sobretudo quando a minha ostra é mesmo ele. Ter mundo não é moda, modo e mood. Ter mundo não é pensar que é possível tê-lo. Mesmo.

Tenho uma criança na minha vida que tem mais mundo quando diz “gosto de ti”, ao ver-me triste (ou alegre) do que todos os supostos mundanos que conheço. Ter mundo é apenas isto: conseguir, uma vez que seja (mas é melhor que seja muitas) pôr-se no lugar de um Outro. Aí começa a possibilidade do mundo. Sem isso fica-se desterrado na parvónia.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s