Jornalista sanguessuga

Esta semana andei numa empreitada de entrevistas. Com pessoas que podiam ser personagens dos melhores livros, com pessoas com vidas cheias. Daquelas que têm o coração na ponta da língua e não precisam de muito para que todos o sintam a bater. Contadores de estórias não formatados, genuínos, que falam das aventuras de há 40 anos com a vivacidade de quem as viveu ontem. Que relatam a perda sem resquício de ressentimento porque a bola é para chutar para a frente e nunca é tarde para marcar golo, para fazer planos, para tentar o que nunca se conseguiu. Mesmo que se tenha 71 anos e a vida tenha dado uma cambalhota do 80 para o 8.

Às tantas dou por mim tão embrenhada que me esqueço do que ali fui fazer. Já não quero saber que palavras poderão entrar nas linhas do meu texto. Que ângulo me poderá interessar mais. Se as duas horas que tinha reservado passaram a ser quatro. Perco o Norte por completo. Esqueço-me do guião imaginário que levava mais ou menos definido. Viro uma verdadeira sanguessuga. Quero saber tudo. Sou a vizinha coscuvilheira que esgravata a vida alheia até à exaustão.

Emociono-me à séria, absorvo os problemas e não tardo a começar a senti-los como se pertencessem a alguém da minha família, a um amigo próximo. Prometo fotografias a quem não vê impressa a sua imagem há muito tempo. Prometo bacalhau e chouriço. Queijo e Casal Garcia. Saio dali amassada.

Vou, desenterro lembranças enferrujadas, ouço pessoas expostas como a carne dos mercados, puxo por elas até ao limite, e depois? Depois nada. Vou-me embora porque é a vidinha. A angustia que incomoda na garganta vai passando. Volto mais tarde para cumprir o prometido e arquivo tudo numa gaveta que abrirei de vez em quando, já com um sorriso nos lábios, para dizer: “Na Guiné conheci um casal de portugueses que comia fruta enlatada à sobremesa quando isso não era nem visão na metrópole, que nunca tinha em casa menos de 10 garrafas de whisky para receber as visitas, que vinha de férias a Portugal todos os anos. Na Guiné conheci um casal de portugueses que já teve isso tudo e agora bebe vinho do mais barato, anda a pé e não tem dinheiro para voltar. Na Guiné conheci um homem com 71 anos que passou do 80 ao 8 mas continua a fazer projectos como se tivesse outra vida para viver. Como se não lhe faltasse tempo para voltar a reconstruir tudo outra vez.

E isto às vezes dá-me a volta aos miolos.

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